terça-feira, 15 de outubro de 2013

Dor que emana

Quem consegue parar a dor humana?
O ser atraca-se à sua própria dor como um cão esfomeado atraca-se à carne.
A dor lhe parece, amiúde, combustível de vida.
Quem consegue parar a dor humana?
O apego ao punhal que dilacera suas entranhas.
Morde o lábio, contrai o maxilar. Tem de suportar a dor.
Quem consegue parar a dor humana?
Crua, nua, aparece-lhe em pontadas escuras, como nódoas de carne.
Pensamentos em redemoinho, ouvem uma nota só, de dor.
Quem consegue parar a dor humana?
Voraz, a dor rebate a pergunta

“Que dor é capaz de parar o humano?”

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Escarlate


Era vermelha a rosa
O lábio cravado na pele do outro também.
Vermelho era o sangue a pulsar
Latejante
Agonizante
Mornamente.
Vermelhas eram as marcas
Como pequenos caminhos
Percorriam-lhe o corpo.
Vermelha era a língua
Guardava segredos
De uma viagem trêmula.
O aroma cheirava a vermelho carmim.
Vermelha era a lembrança de uma noite quente

Uma madrugada azul.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

São minhas lágrimas que escrevem hoje


Uma mulher de corpo frágil, marcado pela bagagem da vida, mas uma alma e um coração fortes, com uma fé inabalável. Nós ainda tínhamos muitos sorrisos pra darmos juntas, eu ainda ia dormir com a senhora, eu juro que ia, eu queria realizar teu sonho, que não era enriquecer, que não era ter bens materiais, era só de conhecer o mar... E agora, sempre que olhar pro mar, pra imensidão, onde o mar encontra-se com o céu, eu vou te sentir, em casa brisa e vou fingir que está do meu lado, de mãos dadas comigo, e eu te seguraria forte se as ondas viessem... eu te protegeria... só precisava de mais um tempo contigo, mais um abraço, talvez ser uma neta melhor, olhar mais umas mil vezes nos teus olhos azuis e perceber o quanto eles falavam e aí eu diria que te amo, que você é a melhor. Promete que cuidará de mim?! Você me enchia de forças e agora eu to precisando tanto, aquela casa dói muito sem você, parece que os móveis choram, que as paredes choram, que o chão, chora, tudo se derrama em lágrimas.
                A senhora já sofreu muito na vida, agora o que mais quero é que esteja em um lugar de paz, em um lugar bonito, igual a tua alma. Vá em paz, eu te amo, como sempre.


domingo, 28 de abril de 2013

Desculpe-me o frio


Quando o frio me guardou em seus braços, eu quis calor. Frio nos deixa aquele vazio não preenchido e aquele gosto de café amargo na garganta, de amor ausente. Quando a noite cai, eu me aqueço na minha própria existência morna, nos meus devaneios incertos e pensamentos melancólicos. Por vezes, sorrio pras estrelas, quando elas aparecem... mas nem sempre elas me devolvem o sorriso. Madrugadas são um templo, onde amantes envolvem-se em tranças de pernas, onde boêmios entoam canções meio desajeitadas de uns goles a mais, mulheres tragam seus cigarros, pessoas dormem, outras refletem...onde pensamentos varrem o juízo como chuva fina lava a calçada e eu, meio tonta de sono, reconheço o peso das minhas palavras e que, a tristeza, real ou inventada, me inspira.

Talvez seja pretensão demais tentar transformar retalhos de alma em poesia, mostrar-me ao avesso pra saberem que por dentro é o meu lado certo... Sou o emaranhado dos meus pensamentos, sou meus suspiros e devaneios mais íntimos, sou a palavra que digo, e a que guardo,  sou meu eu, escondido, puro, meu.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Nudez poética

Muitas coisas me enchem a vista, mas a nudez me encanta! É pura poesia muda contida em cada pura pele, cada marca de vida e singularidade. Tem um quê de verdade, fragilidade, transparência...  Tristes dos que foram treinados a observar a nudez erótica apenas, a nudez com finalidade... perdem de ler a música que enrola e impermeia a pele dos desinibidos.  Da prosa e nota contida em cada entrelinha da (im)perfeição humana! Corpo nu é templo, corpo nu é tela, corpo nu é arte.


Super indico este link de um ensaio intitulado "Nu Honesto", que retrata as mulheres em seu cotidiano, no seu nu subjetivo e sincero.
http://www.araruna1.com/noticia/1685/nu-honesto-fotografo-faz-imagens-de-mulheres-lindas-e-suas-imperfeicoes-confira

segunda-feira, 25 de março de 2013

Tom de sépia


A música que toca agora, me toca na ferida como um dedo toca uma campainha, insistentemente, numa nota só.
O frio que faz agora, esfria as extremidades de mim e do quarto, mas deixa os pensamentos quentes, a memória acesa.
Os barulhos da noite perturbam o sono dos inocentes, dos sem culpa. O silêncio do outro lado da cidade, é cúmplice dos que não calam.
O tom da noite lembra uma fotografia velha, em tons de sépia. Sépia também é o tom de tudo o que poderia ter sido e não foi. Do que foi quebrado as pernas e ficou impossibilitado de andar e hoje se arrasta, agarrado na esperança do existir.
Fecho os olhos tentando ver tudo em preto e branco, mas tudo vira nitidez, cheiro, saudade, devaneio.