terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Amarelo fruta

Tão sós na tarde cor de manga
Eu, tão só, no teu corpo cor de âmbar
Minhas mãos percorriam um caminho macio e conhecido
Teus lábios suavemente colados aos meus, como borboleta pousada na flor
Nossos corpos, uma nota só de um ritmo calmo
Tal qual a canção que preenchia o ambiente e repetia perguntando se você poderia me emprestar suas asas.
Mãos dadas e nos sentíamos realmente voar
Um vôo calmo e prazeroso.
Todo o teu corpo trêmulo, ofegante, colado ao meu
Sentia teu peso e teu coração
Nossas almas confraternizam esse momento em sintonia
Não existe pecado
Não existe arrependimento
Os pudores já se foram
Mas o carinho latente em nosso peito
Ah, esse nunca se vai...
Impregna-se na conexão da nossa amizade.








segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Vez por outra preciso me reorganizar. Veja, estou apenas colocando pra fora – de novo e de novo – aqueles retalhos que sobraram de mim e que eu sempre tenho que recosturá-los toda vez que teu olhar pressiona o meu sem pudores.

Gatos da noite




Quando a lua rasga o céu, felinos pulam de seus telhados e viram mulheres. 

Calçam seu salto agulha, pintam-se e colocam uma roupa provocante.

Felinos são misteriosos, tem um quê de não dito.

Tomam o último gole da cachaça, jogam o cabelo e agarram a coragem.

São donas das esquinas, com o olhar de rabo de olho são as senhoras da volúpia.

Entre um gole e outro, entre um carro e outro, entre um trocado e outro, abrem-se, mas fecham o coração.

Quantas coisas estão escondidas por detrás daquele batom? Que mulher guerreira está desmoronada, mas sustentada pelos quinze centímetros de seu salto?

Pisam nos pudores de uma sociedade patriarcal e moralista, voam sobre os olhares enojados.

Amanhece, os gatos se recolhem ao seu sono, como corujas. Ou talvez voltem pra casa, com alimento e amor pra sua família. Mas sabem que ao cair da noite, estarão repetindo o mesmo ritual, como um mantra de vida.

Mulheres noturnas são gatos que não se dão o respeito, porque ele já é seu, por direito.

Humanos são inumanos




Humanos são inumanos

São punhais de mentira, é sede de autodestruição

Dedos apontados.


Humanos são inumanos

São dentes que mastigam o impossível

E cospem o inacreditável.


Humanos são inumanos

São corações pretos feitos de retalhos de dor

É estômago revirado, é víscera crua.


Humanos são inumanos

É carne putrefada dominada pela sede de tragédia

É tiro na pedra que jorra culpa.

Humanos são inumanos

É nódoa de sangue vermelho na pele da fome

É miséria açoitada presa na corrente.


Inumano é um ser, é humano.

domingo, 10 de novembro de 2013

Part(ida)


Como se o grito que entala a alma se materializasse virasse fumaça densa que corresse e te enforcasse as palavras.  
Como se o meu coração pulasse na garganta pra avisar que algum líquido escorrega quente sobre minhas veias.
Pra lembrar que o teu não amor foi quem me queimou o juízo e que eu te dei o melhor de mim, eu te dei meus olhos, ternos, sinceros, profundos.

Em troca costas que se viram, boca quem e nega, olhos que me queimam.

domingo, 3 de novembro de 2013

Desaniversário


Chuva fina e flores na cidade cortejam. Cortejam os que se foram, cortejam os que nasceram. Num dia incomum, meu choro irrompeu o mundo, era um grito de protesto por ser arrancada daquelas entranhas quentes e familiares para um mundo estranho, era grito de resistência: seria a luz que nascia num dia preto. Não menos que duas décadas, era a idade que tinha o sorriso, era a idade cravada nas lágrimas que me arrancavam não mais do útero primeiro, mas pariam-me de um jeito estranho e delicioso em um novo nível de consciência: Transcendi e não volto a caber em mim. Rodeada de sorrisos e olhares, tudo se movia paradoxalmente lento e rápido.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Dor que emana

Quem consegue parar a dor humana?
O ser atraca-se à sua própria dor como um cão esfomeado atraca-se à carne.
A dor lhe parece, amiúde, combustível de vida.
Quem consegue parar a dor humana?
O apego ao punhal que dilacera suas entranhas.
Morde o lábio, contrai o maxilar. Tem de suportar a dor.
Quem consegue parar a dor humana?
Crua, nua, aparece-lhe em pontadas escuras, como nódoas de carne.
Pensamentos em redemoinho, ouvem uma nota só, de dor.
Quem consegue parar a dor humana?
Voraz, a dor rebate a pergunta

“Que dor é capaz de parar o humano?”