segunda-feira, 25 de março de 2013
Tom de sépia
A música que toca agora, me toca na ferida como um dedo toca uma campainha, insistentemente, numa nota só.
O frio que faz agora, esfria as extremidades de mim e do quarto, mas deixa os pensamentos quentes, a memória acesa.
Os barulhos da noite perturbam o sono dos inocentes, dos sem culpa. O silêncio do outro lado da cidade, é cúmplice dos que não calam.
O tom da noite lembra uma fotografia velha, em tons de sépia. Sépia também é o tom de tudo o que poderia ter sido e não foi. Do que foi quebrado as pernas e ficou impossibilitado de andar e hoje se arrasta, agarrado na esperança do existir.
Fecho os olhos tentando ver tudo em preto e branco, mas tudo vira nitidez, cheiro, saudade, devaneio.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Pra ver se nascia uma planta no chão
Água...
Água no sertão...
Poderiam ser em forma de lágrimas, pelo sofrimento de uma terra seca, onde açudes e barragens agora tornaram-se barro.
Mas, o que é a água pros sertanejos desta terra castigada pela seca, senão gotas de esperança? Gotas de vida?
A água vem, calma e meio tímida. Mal sabe ela o quanto é bem vinda nesta terra de gente de fé.
Lava a poeira, lava a alma.
O sorriso transborda, o olho também, a felicidade também. Tomara que a barragem também transborde, num futuro próximo.
![]() |
| Sim, esta é minha cidade! A imagem acima é da nossa querida barragem, sem água :/ |
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
À 2013, com amor
Querido 2013,
Falta muito
pouco para nos conhecermos, não é? Ouvi muito falar de você (acho que já posso
me atrever a chamá-lo de você, dada a iminência do nosso encontro). Confesso agora que pensei que você demoraria
mais, mas me enganei, e como me enganei! Vejo o quão precipitado você é! Nem
bem me despedi ainda de 2012 e você já vem chegando, todo posudo! A impressão
que me dá, é que eu e 2012 passamos pouco tempo juntos, que ele veio bem
ligeirinho, mas as histórias que escrevemos juntos, daria um livro! Nossa,
2013, seu antecessor foi intenso, muito intenso, mas um ótimo professor.
Se me
permite a licença, e se o senhor não estiver muito apressado como todos os anos
do calendário sempre estão, posso até arriscar-me a contar um pouco da minha
grande aventura com 2012. Espero que leia, e que trate com respeito minhas
palavras.
Eu bem me
despedia de 2011, com um abraço, e 2012 já chegou brindando, me dando uma pista
de como aquele ano seria. Prometeu, e cumpriu!
De primeira, me contou que eu conheceria muita gente, e ele acertou em
cheio. Foi um ano de muitas viagens,
dentro e fora de mim. Nestas viagens, pessoas,
subjetividades, singularidades. Algumas passavam despercebidas; outras passavam, marcavam, mas passavam;
algumas, estava ridiculamente perto de mim, bem ao alcance das mãos, e eu
sempre as deixava passar. Dessa vez foi diferente, houveram muitas que eu
agarrei, tantas outras que me agarraram! Essas você irá conhecer, pode ter
certeza, amigo.
Cada tocar de alma, enriqueceu-me de um jeito
que poderia eu fazer inveja a qualquer sheik árabe, cuja maior riqueza se
traduz em ouro e posses. São almas, coloridas, esvoaçantes, maciças,
singulares, risonhas. São probabilidades. Ganhei sorrisos! Alguns, até tive que arrancar
pra conseguir, você acredita? Outros, eu tive que trocar pelos meus, e ainda,
joguei ao vento milhares de sorrisos meus, mesmo se eu não esperasse nenhum em
troca (mas assumo, eu sempre esperava). Olhares? Tenho aos milhares, cada um
com sua cor, cada um com uma intensidade, um trejeito, inesquecíveis, me piscam
a cada memória do seu dono. Abraços, afetos, amigos, risadas pra lá de sonoras,
palavras de carinho? Incontáveis.
Conheci
muito o outro, para conhecer melhor ainda o eu. E eu que achava que me conhecia
o suficiente! Que tola! O ser humano está em constante mutação e, uma hora ou
outra, você vai desconhecer-se. Me desconstruí, para construir um eu renovado,
um eu ativo, um eu engajado, um eu mais eu, assim como a lagarta, que perde o
medo do casulo escuro, que larga o comodismo e as coisas conhecidas e se lança
à uma nova empreitada em busca do novo, mesmo com medo do que possa encontrar.
Imagine só encontrar asas, cores, sentidos! Você pode descobrir que o novo é mesmo
fascinante, e que, você pode também preservar o velho. O ser humano é um ser adaptável! Tenho asas,
tenho cores, nomes e características.
É por essas
vivências, tão marcantes, 2013, que sinto já saudade de 2012. Mas, acho que
depois de toda essa nossa conversa você já me conhece um pouco, e eu te conheço
um outro tanto. Como isso é possível? Eu te vi passeando em cada olhar
esperançoso e ansioso que te busca, em cada promessa feita, na tentativa de ser
posta em prática, em cada oração silenciosa, que clama por um ano melhor, por
novas chances. É, você já está quase aqui. Na certa, deve estar atrás de mim,
terminando de ler esta carta para, finalmente, me conhecer. Tenho vontade de me
virar e ver logo sua cara. Como será você, 2013? Por favor, seja bonzinho
comigo, tá? Seja temperado, seja doce, agridoce, seja singular. Contagem
regressiva. Rolhas disparadas dos pescoços do champanhe. Branco. Dourado. Os
fogos de artifício enfeitam o céu e me entrega-o de presente. O relógio zera, o
minuto para. É hora de virarmos, cara a cara. Um novo ano, um novo capítulo,
365 folhas em branco. A mente repete o
mantra, é hora de evoluir. Apenas mais um segundo e... eu sabia que você estava
bem atrás de mim! BEM VINDO, 2013.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Um amor, a flor
Quisera cortar pela raiz a dor
Como quem arranca um dente, sem anestesia.
Quisera nunca ter semeado flores
O seu perfume lhe causava raiva.
Raiva de o sentir, e o guardar.
Tão mais fáceis seriam os arbustos!
Eles não lhe fariam falta no jardim.
Mas as flores? Ah, as flores ela amava.
Sabia de cor a cor.
Tão complicadas são as flores!
Como quem arranca um dente, sem anestesia.
Quisera nunca ter semeado flores
O seu perfume lhe causava raiva.
Raiva de o sentir, e o guardar.
Tão mais fáceis seriam os arbustos!
Eles não lhe fariam falta no jardim.
Mas as flores? Ah, as flores ela amava.
Sabia de cor a cor.
Tão complicadas são as flores!
domingo, 28 de outubro de 2012
Aquela árvore
Todo dia, no fim da tarde, ela esquecia do tempo do relógio. Enquanto a cidade borbulhava de gente cansada demais, cansativa demais, sempre correndo, indo e vindo, ela congelava a imagem de uma árvore. Como que numa mística, ela tinha um enorme apreço pelo modo como os seus galhos secos se projetavam no céu, trazendo um contorno abstrato, surreal! Nunca vira uma folha sequer em seus galhos, talvez marcas do tempo. Mas, confessava, preferia que assim o fosse. Seria a idade da árvore? Quem sabe...
O sol se punha e pintava o céu de cores, como pinceladas de aquarela. A sua preferida unia laranja, amarelo e rosa. A menina gostava de pensar em muitas coisas nesses momentos, como que pensar em tudo, e pensar em nada, ao mesmo tempo. Viajava debruçada sobre aquele portão, penetrada de luz morna por todos os poros, sentindo o vento beijar os teus cabelos. Era assim que, muitas vezes, mergulhada num mar de possibilidades, tinha os pensamentos mais produtivos! E imaginava que a semente daquela árvore poderia não ter germinado, a árvore poderia não ter dado frutos, ou flores, nem ter tido importância, mas era hoje, sem uma folha sequer e com toda a experiência do tempo, que ela demonstrava seu melhor momento.
O sol se punha e pintava o céu de cores, como pinceladas de aquarela. A sua preferida unia laranja, amarelo e rosa. A menina gostava de pensar em muitas coisas nesses momentos, como que pensar em tudo, e pensar em nada, ao mesmo tempo. Viajava debruçada sobre aquele portão, penetrada de luz morna por todos os poros, sentindo o vento beijar os teus cabelos. Era assim que, muitas vezes, mergulhada num mar de possibilidades, tinha os pensamentos mais produtivos! E imaginava que a semente daquela árvore poderia não ter germinado, a árvore poderia não ter dado frutos, ou flores, nem ter tido importância, mas era hoje, sem uma folha sequer e com toda a experiência do tempo, que ela demonstrava seu melhor momento.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Mim
Eu gosto de me mostrar,
Me doar.
Jogar ao vento o que sou, mesmo que me joguem o que eu deveria ser.
Não importa, a raiz é profunda, mas liberta.
Me plantei, floresci.
Sou uma flor, (in)comum, (i)mortal.
Liberdade de cor, cheiro, forma, sempre!
De ser, de não ser, do ser.
terça-feira, 31 de julho de 2012
S(ó)
A tristeza dos olhos não cabem na gota de orvalho
Transcendem a imensidão da brisa vespertina
Calma, serena e morna.
O riso meia boca
O choro meia lágrima
A alegria meio triste
A incompletude!
O vazio do amor efêmero
O vazio do lugar ao lado
Da paixão que é fogo de palha
Da gasolina que acaba
Do amor solitário.
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