domingo, 21 de setembro de 2014

Pra não morrer de saudade

Conto as horas do relógio
Arranco vorazmente as folhas do calendário
Fazendo prece pro tempo voar
Mesmo que ele insista em correr ao contrário.
Meu olhar ficou daltônico
Minha boca secou de palavras
A saudade, feito ácido, corrói meu coração
Enquanto isso, contraio o maxilar e engulo em seco.
Meu pensamento enlouquece
Faz força pra sonhar contigo
Rememora todos os segundos que vivemos
E morremos (de amor).
Minhas mãos te buscam freneticamente
Meu corpo se contorce e implora
A lua sai e debocha de mim
Parece que diz: - Vai morrer de saudade.




quinta-feira, 31 de julho de 2014

Seis

No balanço das horas
No balanço da rede
No balanço dos teus cabelos
No balanço dos nossos corpos
No balancê da quadrilha
Tua boca, uma ilha
Balanceou meu coração.


A poesia também dói, moço.

Corta, sangra, sabe?

A poesia também pesa, moço!

Chuta, cospe, mastiga.

Mas sabe o que dói mais que poesia falada, moço?
Uma poesia entalada

terça-feira, 27 de maio de 2014

A arte me consome e me assume!
Rasga-me, nua e crua
Me põe em estandarte
Me expõe ao mundo.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sobre um dia sem data

A chuva trouxe o orvalho pra dentro dos meus olhos, o cinza não colore só o céu, o arco-íris não saiu, nem sequer explicou por que não veio, aqui não faz cheiro de terra molhada. O pôr do sol não tinha cores, eu pude ver a sua ausência com os meus próprios olhos de janela. Quando a chuva cessou, um ou outro passarinho emitia um som tímido, quase não audível. O incenso acabou, a melodia se esvaiu, a mente transbordou um líquido salgado, lágrima de mar. A noite demorou a varrer o mundo com a sua saia preta, costurada com a linha da melancolia. Estrelas? Devem estar se exibindo em outro céu, no meu não quiseram nem dar as caras. A lua me olhava, me olhava, lamentava e sentia pena. O céu chorou, as nuvens desmancharam de angústia e o Sol dormia um sono profundo de quem não quer sair do útero quentinho pra nascer.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Quando mais me importei com o mundo, quis tirar todas as suas dores sangrentas, latentes e repintá-las, minimizá-las. Quando mais me importei com todo o mundo, eu absorvi um pouco da dor de cada um e chorei, lamentei as dores do mundo de todo o mundo. Quando mais me  importei com todos, me senti retalho de alma, um pouco de cada. Quanto mais eu remoía e colecionava dores, mais a minha crescia, apoderava-se de mim, era a minha companhia. Quando eu percebi que eu somava dores, já havia explodido no acalento do meu próprio abraço inquietante, o abraço de ser vencido pelo cansaço.

domingo, 9 de março de 2014

Beat

Sobre a expansão de consciência e a afirmativa certeira de que havia nascido ali, naquele estado, no meio daquelas luzes e cores que me olhavam e me abraçavam, não me incomodavam. Árvores luminosas, leões d’água, cidades subterrâneas. Foi ali, no meio daquele calor de março, daquele ritmo, daquela cumbia, daquela energia, daquelas pessoas. Poderia me aninhar na aura colorida e doce, na freneti(cidade). Foi aqui que nasci, afirmei de novo. Nasci nesse solo quente, nasci nos ritmos. Toquei de leve o chão e levei minha mão por todo o meu corpo. Mais que estar ali, eu queria fazer parte daquilo, queria ser absorvida pelas notas musicais. Um ritmo suado, agoniado, eu não era matéria corporal, eu era som, batimentos, era um eu abstrato. Meu coração, uma batida. Meu cérebro, uma batida. Meus olhos, uma batida. E me atirei naquela rua, no coração onde nasci.