Sobre a expansão de consciência e a afirmativa certeira de
que havia nascido ali, naquele estado, no meio daquelas luzes e cores que me
olhavam e me abraçavam, não me incomodavam. Árvores luminosas, leões d’água,
cidades subterrâneas. Foi ali, no meio daquele calor de março, daquele ritmo,
daquela cumbia, daquela energia, daquelas pessoas. Poderia me aninhar na aura
colorida e doce, na freneti(cidade). Foi aqui que nasci, afirmei de novo. Nasci
nesse solo quente, nasci nos ritmos. Toquei de leve o chão e levei minha mão
por todo o meu corpo. Mais que estar ali, eu queria fazer parte daquilo, queria
ser absorvida pelas notas musicais. Um ritmo suado, agoniado, eu não era
matéria corporal, eu era som, batimentos, era um eu abstrato. Meu coração, uma
batida. Meu cérebro, uma batida. Meus olhos, uma batida. E me atirei naquela
rua, no coração onde nasci.
domingo, 9 de março de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Em um estado meio dormente, que parecia um meio termo entre
a vontade e a desistência ou entre o sono e a vigília, lágrimas quentes caíam
pelo rosto. Ela não se esforçava, as lágrimas brotavam e rolavam, esquentando
sua bochecha, contrastando com o clima frio da cidade. Agarrava-se ao
travesseiro como quem agarra a última chance. Cerrava o maxilar e chorava, remoía
todas as dores extremamente familiares, dores de entranhas, dores já paridas. A melancolia te inspirava e alfinetava. A
música, já repetida umas 16 vezes, não sei, martelava em sua cabeça e era
máquina de mais lágrimas. A escuridão, o cheiro de canela do incenso quente, a
melodia, o sono. Só isso.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Insônia
Pensamentos insistentes
Parecem torneira pingando
Ploc! Ploc!
A noite inteira.
Parece martelo num prego
Tá! Tá! Tá! Tá!
Madrugada adentro.
Travesseiro quente
Queima meu sono
Lençóis revirados
Pernas inquietas
Olhos arenosos
Boca seca
Um copo d'água pra lavar toda essa lama
Ver a água corrente
O barro limpinho
Doido pra virar escultura
Ver ideia tomando forma.
Tic tac tic tac
O tempo corre!
O tempo apressa
A pressa imprensa
E a insônia é densa.
Parecem torneira pingando
Ploc! Ploc!
A noite inteira.
Parece martelo num prego
Tá! Tá! Tá! Tá!
Madrugada adentro.
Travesseiro quente
Queima meu sono
Lençóis revirados
Pernas inquietas
Olhos arenosos
Boca seca
Um copo d'água pra lavar toda essa lama
Ver a água corrente
O barro limpinho
Doido pra virar escultura
Ver ideia tomando forma.
Tic tac tic tac
O tempo corre!
O tempo apressa
A pressa imprensa
E a insônia é densa.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Amarelo fruta
Tão sós na tarde cor de manga
Eu, tão só, no teu corpo cor de âmbar
Minhas mãos percorriam um caminho macio e conhecido
Teus lábios suavemente colados aos meus, como borboleta pousada na flor
Nossos corpos, uma nota só de um ritmo calmo
Tal qual a canção que preenchia o ambiente e repetia perguntando se você poderia me emprestar suas asas.
Mãos dadas e nos sentíamos realmente voar
Um vôo calmo e prazeroso.
Todo o teu corpo trêmulo, ofegante, colado ao meu
Sentia teu peso e teu coração
Nossas almas confraternizam esse momento em sintonia
Não existe pecado
Não existe arrependimento
Os pudores já se foram
Mas o carinho latente em nosso peito
Ah, esse nunca se vai...
Impregna-se na conexão da nossa amizade.
Eu, tão só, no teu corpo cor de âmbar
Minhas mãos percorriam um caminho macio e conhecido
Teus lábios suavemente colados aos meus, como borboleta pousada na flor
Nossos corpos, uma nota só de um ritmo calmo
Tal qual a canção que preenchia o ambiente e repetia perguntando se você poderia me emprestar suas asas.
Mãos dadas e nos sentíamos realmente voar
Um vôo calmo e prazeroso.
Todo o teu corpo trêmulo, ofegante, colado ao meu
Sentia teu peso e teu coração
Nossas almas confraternizam esse momento em sintonia
Não existe pecado
Não existe arrependimento
Os pudores já se foram
Mas o carinho latente em nosso peito
Ah, esse nunca se vai...
Impregna-se na conexão da nossa amizade.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Gatos da noite
Quando a lua rasga o céu, felinos pulam de seus telhados e viram mulheres.
Calçam seu salto agulha, pintam-se e colocam uma roupa provocante.
Felinos são misteriosos, tem um quê de não dito.
Tomam o último gole da cachaça, jogam o cabelo e agarram a coragem.
São donas das esquinas, com o olhar de rabo de olho são as senhoras da volúpia.
Entre um gole e outro, entre um carro e outro, entre um trocado e outro, abrem-se, mas fecham o coração.
Quantas coisas estão escondidas por detrás daquele batom? Que mulher guerreira está desmoronada, mas sustentada pelos quinze centímetros de seu salto?
Pisam nos pudores de uma sociedade patriarcal e moralista, voam sobre os olhares enojados.
Amanhece, os gatos se recolhem ao seu sono, como corujas. Ou talvez voltem pra casa, com alimento e amor pra sua família. Mas sabem que ao cair da noite, estarão repetindo o mesmo ritual, como um mantra de vida.
Mulheres noturnas são gatos que não se dão o respeito, porque ele já é seu, por direito.
Humanos são inumanos
Humanos são inumanos
São punhais de mentira, é sede de autodestruição
Dedos apontados.
Humanos são inumanos
São dentes que mastigam o impossível
E cospem o inacreditável.
Humanos são inumanos
São corações pretos feitos de retalhos de dor
É estômago revirado, é víscera crua.
Humanos são inumanos
É carne putrefada dominada pela sede de tragédia
É tiro na pedra que jorra culpa.
Humanos são inumanos
É nódoa de sangue vermelho na pele da fome
É miséria açoitada presa na corrente.
Inumano é um ser, é humano.
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