domingo, 9 de março de 2014

Beat

Sobre a expansão de consciência e a afirmativa certeira de que havia nascido ali, naquele estado, no meio daquelas luzes e cores que me olhavam e me abraçavam, não me incomodavam. Árvores luminosas, leões d’água, cidades subterrâneas. Foi ali, no meio daquele calor de março, daquele ritmo, daquela cumbia, daquela energia, daquelas pessoas. Poderia me aninhar na aura colorida e doce, na freneti(cidade). Foi aqui que nasci, afirmei de novo. Nasci nesse solo quente, nasci nos ritmos. Toquei de leve o chão e levei minha mão por todo o meu corpo. Mais que estar ali, eu queria fazer parte daquilo, queria ser absorvida pelas notas musicais. Um ritmo suado, agoniado, eu não era matéria corporal, eu era som, batimentos, era um eu abstrato. Meu coração, uma batida. Meu cérebro, uma batida. Meus olhos, uma batida. E me atirei naquela rua, no coração onde nasci.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Em um estado meio dormente, que parecia um meio termo entre a vontade e a desistência ou entre o sono e a vigília, lágrimas quentes caíam pelo rosto. Ela não se esforçava, as lágrimas brotavam e rolavam, esquentando sua bochecha, contrastando com o clima frio da cidade. Agarrava-se ao travesseiro como quem agarra a última chance. Cerrava o maxilar e chorava, remoía todas as dores extremamente familiares, dores de entranhas, dores já paridas. A melancolia te inspirava e alfinetava.  A música, já repetida umas 16 vezes, não sei, martelava em sua cabeça e era máquina de mais lágrimas. A escuridão, o cheiro de canela do incenso quente, a melodia, o sono. Só isso.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Insônia

Pensamentos insistentes
Parecem torneira pingando
Ploc! Ploc!
A noite inteira.
Parece martelo num prego
Tá! Tá! Tá! Tá!
Madrugada adentro.

Travesseiro quente
Queima meu sono
Lençóis revirados
Pernas inquietas
Olhos arenosos
Boca seca

Um copo d'água pra lavar toda essa lama
Ver a água corrente
O barro limpinho
Doido pra virar escultura
Ver ideia tomando forma.
Tic tac tic tac
O tempo corre!

O tempo apressa
A pressa imprensa
E a insônia é densa.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Amarelo fruta

Tão sós na tarde cor de manga
Eu, tão só, no teu corpo cor de âmbar
Minhas mãos percorriam um caminho macio e conhecido
Teus lábios suavemente colados aos meus, como borboleta pousada na flor
Nossos corpos, uma nota só de um ritmo calmo
Tal qual a canção que preenchia o ambiente e repetia perguntando se você poderia me emprestar suas asas.
Mãos dadas e nos sentíamos realmente voar
Um vôo calmo e prazeroso.
Todo o teu corpo trêmulo, ofegante, colado ao meu
Sentia teu peso e teu coração
Nossas almas confraternizam esse momento em sintonia
Não existe pecado
Não existe arrependimento
Os pudores já se foram
Mas o carinho latente em nosso peito
Ah, esse nunca se vai...
Impregna-se na conexão da nossa amizade.








segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Vez por outra preciso me reorganizar. Veja, estou apenas colocando pra fora – de novo e de novo – aqueles retalhos que sobraram de mim e que eu sempre tenho que recosturá-los toda vez que teu olhar pressiona o meu sem pudores.

Gatos da noite




Quando a lua rasga o céu, felinos pulam de seus telhados e viram mulheres. 

Calçam seu salto agulha, pintam-se e colocam uma roupa provocante.

Felinos são misteriosos, tem um quê de não dito.

Tomam o último gole da cachaça, jogam o cabelo e agarram a coragem.

São donas das esquinas, com o olhar de rabo de olho são as senhoras da volúpia.

Entre um gole e outro, entre um carro e outro, entre um trocado e outro, abrem-se, mas fecham o coração.

Quantas coisas estão escondidas por detrás daquele batom? Que mulher guerreira está desmoronada, mas sustentada pelos quinze centímetros de seu salto?

Pisam nos pudores de uma sociedade patriarcal e moralista, voam sobre os olhares enojados.

Amanhece, os gatos se recolhem ao seu sono, como corujas. Ou talvez voltem pra casa, com alimento e amor pra sua família. Mas sabem que ao cair da noite, estarão repetindo o mesmo ritual, como um mantra de vida.

Mulheres noturnas são gatos que não se dão o respeito, porque ele já é seu, por direito.

Humanos são inumanos




Humanos são inumanos

São punhais de mentira, é sede de autodestruição

Dedos apontados.


Humanos são inumanos

São dentes que mastigam o impossível

E cospem o inacreditável.


Humanos são inumanos

São corações pretos feitos de retalhos de dor

É estômago revirado, é víscera crua.


Humanos são inumanos

É carne putrefada dominada pela sede de tragédia

É tiro na pedra que jorra culpa.

Humanos são inumanos

É nódoa de sangue vermelho na pele da fome

É miséria açoitada presa na corrente.


Inumano é um ser, é humano.