quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Incenso
Fumaça densa que dança no ar
Meu senso
Pertuba, desnuda e sai do lugar
Eu penso
É tenso, tenro e flutua no copo de um bar
Teu lenço

É leve, poesia breve que acaba no mar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sinto muita falta do útero materno. Nascer é doloroso, não se pede, se é arrancado, é a primeira grande perda. E para que se nasce? Não seria a vida, um eterno caminhar para a morte, um dia a mais não seria, na verdade, um dia a menos? A vida é cruel, o amor também o é. Não aprendera com as falhas em que se espelhou que o amor é a coisa mais paradoxal que existe? Quando pequena, e ainda hoje em tristes esperanças infantis, alimentou a fantasia de que o amor é a coisa mais importante do mundo e que ele basta. O amor, meus camaradas, o amor, entre idas e vindas serve para a poesia. E o quanto dói ver que o galgar de minha existência intensa se pauta geralmente nas poesias feitas da tragédia, dos cacos do mundo, da cidade simbólica que desmorona. Algo bonito, mas profundamente melancólico para que escreve e quem o lê. A poesia é inevitável ao sofrimento, o chão some, as pessoas derretem, o coração aperta e a poesia surge. O quão pode ser cruel a beleza que advém da tristeza do outro, o quão pode ser bonita uma poesia de quem ama demais.
Você é a cachaça mais forte que já tomei - e nem fiz careta!

Vou-me

Começa assim: um mal estar, um embrulho no estômago, um aperto na garganta. Vômito. Vomito! Vomito-lhe palavras presas, doídas, encorpadas e mal mastigadas. Vomito no balde, vomito no banheiro, deixando o metafórico e recorrendo ao literal. Pedaços de almoço e palavras de antes. Dou descarga no balde tentando descarregar as palavras, o sabor ruim delas e do cigarro que fumei sob o sol quente onde não conseguia sequer chorar; o vômito desceu, bebi água e passou. Ainda sinto o sabor das palavras.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Conversa ao pé da cama para aliviar dores

- Aninha, quando você era pequena eu ficava assim, mexendo no teu cabelo.
- Eu lembro, mãe. Nós não cabíamos mais na mesma cama, aí eu vinha pra pontinha, mais perto da sua rede pra você mexer no meu cabelo até eu adormecer (isso espantava os monstros da noite e os medos de coisas reais).

E assim, no âmago dessa lembrança doce, uma delas foi vencida pelo cansaço, a outra, ficou desejando que a cama ainda coubesse as duas juntas.

domingo, 21 de setembro de 2014

Tem gente que tem coração igual ao dedinho do pé: estabanado e feito pra esbarrar nas quinas da vida...

Pra não morrer de saudade

Conto as horas do relógio
Arranco vorazmente as folhas do calendário
Fazendo prece pro tempo voar
Mesmo que ele insista em correr ao contrário.
Meu olhar ficou daltônico
Minha boca secou de palavras
A saudade, feito ácido, corrói meu coração
Enquanto isso, contraio o maxilar e engulo em seco.
Meu pensamento enlouquece
Faz força pra sonhar contigo
Rememora todos os segundos que vivemos
E morremos (de amor).
Minhas mãos te buscam freneticamente
Meu corpo se contorce e implora
A lua sai e debocha de mim
Parece que diz: - Vai morrer de saudade.